Sonhos


Em maio de 2017 fui no show do Cranberries aqui em Londres. Fui com a Marina, uma das minhas melhores amigas. Foi uma noite muito especial: uma banda que eu jamais achei que veria ao vivo junto com a minha amiga. Eu lembro que comprei os ingressos no impulso, sem nem pensar muito, quando vi que eles iriam se apresentar, já que era coisa rara.

A gente mal sabia que seria o último show da banda (todos os demais shows da turnê foram cancelados depois desse, por causa de problemas de saúde dela). Pelo menos com a Dolores cantando. Dreams foi última música, e pra mim o melhor momento do show. Essa não é apenas minha música preferida do Cranberries, mas uma das minhas preferidas de toda vida. Eu me identifico demais com a letra.

Oh my dreams, never quite as it seems...

Por sorte, alguém filmou essa música, nesse show que eu estava. Fica aqui pra eu lembrar de como esse dia foi bom, e também da sorte que tenho de poder escutar Cranberries quando quiser.



Oh my life is changing everyday
In every possible way
And oh my dreams
It's never quite as it seems
Never quite as it seems

I know I felt like this before
But now I'm feeling it even more
Because it came from you
Then I open up and see
The person falling here is me
A different way to be

I want more, impossible to ignore
Impossible to ignore
And they'll come true
Impossible not to do
Possible not to do

And now I tell you openly
You have my heart so don't hurt me
You're what I couldn't find
A totally amazing mind
So understanding and so kind
You're everything to me

Oh my life is changing everyday
In every possible way
And oh my dreams
It's never quite as it seems
'Cause you're a dream to me
Dream to me

Leitura: Lincoln in the Bardo, George Saunders


Esse livro ganhou o Man Booker Prize de 2017. Ainda nem li o ganhador de 2016 (tá pegando poeira aqui na minha estante), mas tinha lido tanta coisa boa a respeito desse que resolvi passar na frente (não que eu tenha uma lista dos livros na ordem que quero ler).

É um livro estranho. A maneira como ele está escrito lembra um pouco uma peça de teatro. Então demora pra gente pegar no tranco e entender o que está acontecendo. Quem são essas pessoas? Onde elas estão? O que dá mais contexto pro negócio são os capítulos que possuem citações retiradas de outros livros e jornais da época que a história se passa.

O que a gente sabe: o filho do presidente Abraham Lincoln está doente, durante a Guerra Civil americana. O menino acaba morrendo, e Lincoln, desesperado, passa uma noite no cemitério onde ele foi enterrado.

Acho que se eu contar qualquer outra coisa vou estragar a história pra quem quiser ler. Gostei bastante, apesar de ter demorado pra me adaptar com essa maneira como o livro foi escrito. Então, não desanime nas primeiras páginas: insista que esse vale a pena!




Oi, 2018!


Assim como o Natal, o ano novo foi bem tranquilo e em companhia de grandes amigos. Comemos, conversamos, brindamos, vimos os fogos na televisão (lembrando que ano passado a gente viu os fogos ao vivo, lá na frente da London Eye! Experiência que recomendo muito pra quem mora aqui, pra fazer pelo menos uma vez), e às 2 da manhã estávamos de volta em casa, prontos pra dormir.

Eu gosto muito da passagem de ano e de toda essa atmosfera otimista (por mais que o mundo esteja uma bela bosta e as perspectivas para 2018 sejam desanimadoras). Pessoas traçando metas, fazendo listas, largando hábitos antigos e tentando incorporar novos hábitos. Detesto os chatos que falam que 'você tem que mudar, não o ano'. Eta povo estraga festa!

Não sou de fazer grandes planos pro novo ano. Não sou de fazer grandes planos nunca, na verdade. Gosto de pensar em metas bem simples, acho que pelo simples fato de eu não ser uma pessoas ambiciosa. Pra vocês terem uma ideia, algumas das minhas metas para 2018: parar de colocar açúcar no café (já comecei dia 29/12 e continuo firme e forte), cortar refrigerante da minha vida de uma vez por todas (eu não compro pra ter em casa, mas sempre acabo pedindo quando vamos comer fora e eu não quero nada alcoólico), parar de carregar bolsa grande cheia de tralha (também já comecei em 2017), trocar o colchão e mandar pintar o apartamento (esse tem grandes chances de não acontecer, me dá uma gastura só de pensar na pentelhação que é ter a casa pintada).

Ah, também perguntei pro Martin se ele topava tirar uma 'selfie' por dia, nós dois juntos, e ele topou. Então esse é nosso projetinho juntos.

E vocês, traçam metas pro ano novo?

Natal francês


Desde 2011 eu e o Martin passamos o Natal junto com a Paula e o Filipe, nossos amigos que se mudaram pra Paris poucos meses depois que nós chegamos em Londres. Esse ano foi nossa vez de ir pra lá (desses 7 natais, 5 foram aqui em Londres), e além de passearmos em Paris fomos conhecer o maravilhoso Mont Saint-Michel.

Foi uma semana de férias no total (chegamos em casa há poucas horas), como eu estava ansiosa por essa pausa! Tive um ano muito bom (obviamente sem levar em consideração o momento de merda que assola o mundo todo), mas esses últimos meses estava com dificuldade de recarregar a bateria. Ir visitar nossos amigos pra manter essa tradição foi uma ótima maneira de encerrar o ano.

Aqui uma foto do quarteto em frente ao Mont Saint-Michel. No dia que chegamos o vento estava muito, muito forte, era preciso ter cuidado pra não ser derrubado (sério). Esse lugar estava na minha listinha de desejos turísticos há tempos, e finalmente conseguimos ir! É tão lindo quanto todas as fotos que vi.


Espero que todo mundo que lê esse blog tenha um fim de ano relax. E rodeado de amigos!

Quem é o criminoso?


Estamos em Paris por uma semana, para passar o Natal com os nossos amigos Paula e Filipe - esse será o sétimo Natal que passamos juntos, uma tradição que não pretendemos quebrar.

Bom, ontem eu e o Martin estávamos passeando pela cidade quando ouvimos uns gritos. Olhamos pra trás e vimos dois homens correndo. Um perseguia o outro. O que estava fugindo carregava uma sacola, e o que estava atrás dele vestia um avental. Na hora já entendemos: o da frente roubou algo de uma loja, e o de trás era vendedor da loja e percebeu o roubo.

O vendedor alcançou o que roubou, arrancou a sacola dele e tirou de dentro uma garrafa - o objeto roubado. Mas o que aconteceu em seguida foi o que realmente me chocou: o vendedor começou a bater no cara, que por sua vez se encolheu e não revidou. Foram uns dois ou três tapas. O moço então tentou pegar a sacola de volta da mão do vendedor, mas não conseguiu. O vendedor o ameaçou com a garrafa e então andou de volta para a loja. A gente claro não entendeu o que eles falaram, mas o rapaz voltou junto com ele. Sei lá se ao chegarem na loja o vendedor chamou a polícia. Continuei andando.

Fiquei muito, mas muito impressionada mesmo com o acontecido. Como uma pessoa bate na outra no meio da rua, em plena luz do dia, na frente de todo mundo? Pra mim, o vendedor perdeu a razão no segundo que encostou a mão no rapaz que roubou a garrafa. Isso é um perigo. Quem somos nós pra fazer justiça com as próprias mãos? Ainda que tenha sido um flagrante? Desde quando bater em alguém resolve algum problema? O que será que aconteceu com o 'ladrão' dentro da loja? Não gosto de pensar.

Você pode até argumentar comigo: mas poxa, ele roubou!

Só que de um 'flagrante' para o achismo é um passo. Isso é muito, muito perigoso. Não cabe a ninguém decidir a punição do 'ladrão'. Existe sistema judiciário pra isso. E já é suficiente que tal sistema seja antiquado e que não resolva violência a longo prazo. Isso não justifica que a gente tenha que penalizar outros seres humanos.

Enfim. Não consigo parar de pensar no rapaz. Na cena do vendedor descendo a mão nele, no  meio da rua.

Leitura: Flâneuse, Lauren Elkin


Esse livro estava na lista de leituras complementares de uma das minhas aulas do mestrado. Como era um tema muito bacana e uma amiga também tinha começado a ler e estava gostando, resolvi unir o útil ao agradável.

A ideia de 'flanar' - ou seja, caminhar por um centro urbano sem objetivo, apenas observando o movimento da cidade sem ter exatamente um lugar pra chegar - nasceu em Paris no século 19. O flanador - em francês, flâneur - era o homem burguês, que tinha o privilégio de caminhar sem ser incomodado. E a flanadora, a flâneuse, existia?

Bom, existem várias opiniões a respeito. Há pesquisadores que dizem que sim: que a mulher ocupava as ruas dos centros urbanos também, ainda que sob outra perspectiva. Eu não concordo. Eu não acho que mulheres que estavam na rua pra trabalhar - seja como vendedoras ou como prostitutas ou até mesmo as mulheres ricas que podiam sair, mas tinham que levar acompanhantes (sem falar da roupa desconfortável) - aproveitavam a cidade da mesma maneira do flâneur.

Mas discussões acadêmicas a parte, a ideia do livro da Lauren Elkin é mostrar a experiência de mulheres - de diversas épocas - que tiveram oportunidade de ter essa experiência. Desde a escritora George Sand, que se vestia de homem para poder flanar em Paris sem ninguém encher seu saco, até Virginia Woolf em Londres e a própria autora em Tóquio, ela explora essas histórias e mostra que as mulheres também ocupam espaço na cidade.

A introdução do livro é sensacional. É praticamente a aula que eu tive sobre isso em algumas páginas. Mas os capítulos - cada capítulo dedicado a uma cidade em conjunto com uma protagonista da qual ela 'segue' os passos - vão ficando repetitivos. Ela mistura muito suas experiências pessoais ao longo da narrativa e eu achei que isso não ficou muito bem encaixado. Fora que em alguns capítulos fica monótono mesmo, como em um que ela descreve um filme, cena a cena. Em algumas partes eu achei que ela perdeu o fio da meada completamente: parecia que não estava mais descrevendo a relação daquela mulher com aquela cidade, mas apenas mostrando o seu conhecimento intelectual sobre o trabalho produzido por aquela mulher.

Acabei levando muito mais tempo do que achava que ia levar pra terminar esse livro. Claro, tem o mestrado na parada e o desgaste mental - as vezes não tenho vontade de ler nada e só quero ficar vendo porcaria na televisão e na internet - mas me conheço e sei que se eu tivesse me interessado mais teria terminado antes.




Queen, mais uma vez


Em janeiro de 2015 a gente foi no show do Queen (com o Adam Lambert como vocalista), e eu achei que jamais eles tocariam de novo. Mas eis que resolveram fazer mais uma turnê mundial para comemorar os 40 anos do álbum News of the World (com o famoso robô na capa), e lá fomos nós de novo. Como da primeira vez, foi maravilhoso. Emocionante, com todas as músicas que a gente ama e canta de cor.

Eu achei que dessa vez o público estava menos animado, pelo menos nas primeiras músicas. Demorou pra galera pegar no tranco!

Bom, fiz alguns snaps e resolvi compilar. Então aqui está um videozinho bem tosco com alguns momentos do show. Desculpem-me os 'UHUUUUUUUS' e a voz tentando acompanhar algumas partes das músicas. Na verdade, acho que esse post é mais pra mim do que pra vocês : )


Agenda cheia


Uma das coisas que quero fazer em 2018 é fazer menos coisas. Esses dias eu peguei minha agenda do ano que vem e comecei a anotar os compromissos que já tenho: alguns shows, meia maratona, exposições e até encontros com amigas. Vai ser um ano atribulado, de dissertação pra escrever, projeto do Conexão Feminista para colocar em prática (estou esperançosa de que vamos alcançar a meta!) e provavelmente algumas viagenzinhas.

Eu sempre tenho a impressão de que 'daqui duas semanas vai estar mais tranquilo', mas nunca acontece. Vou marcando compromissos e quando em dou conta mal tenho tempo pra mim, pra ficar em casa e ficar com o marido vendo televisão. Morar em Londres catalisa essa sensação de que estamos perdendo algo muito bom se ficamos em casa. Tem sempre alguma coisa incrível rolando.

Óbvio que é ótimo estar com as amigas e ter uma vida social agitada, mas preciso aprender a priorizar. Meus treinos de corrida foram muito prejudicados esse ano, e em 2018 eu quero que isso seja o que me faz dizer não para marcar outros compromissos, e não o contrário.

E vocês, sentem isso também?

Intercâmbio Feminista


Há uns meses eu e a Renata inscrevemos a Conexão Feminista em um edital do Fundo Elas, voltado para projetos que contemplassem ativismo feminista. Foi a nossa primeira experiência do tipo (até porque é raro encontrar edital que aceite projetos de grupos informais como o nosso), e infelizmente não fomos selecionadas. Mas a gente gostou tanto do projeto que criamos, que decidimos tentar novamente, mas dessa vez através de financiamento coletivo.

Então nós reescrevemos o projeto, deixamos tudo mais redondinho e com a nossa cara, e ontem colocamos no ar a campanha! O projeto se chama Intercâmbio Feminista, e a ideia é que a gente visite algumas ONGs e associações de mulheres no Reino Unido (a princípio: afinal, se der certo, nada impede que a gente faça isso em outros países também!). Vamos fazer o nosso clássico bate papo ao vivo no canal e também produzir ebook e vídeo-documentário. Queremos quebrar essa barreira geográfica e cultural e entender as melhores práticas, compartilhar experiências e soluções com outras ativistas que dedicam a vida ao feminismo.

Claro que colocar esse tipo de campanha no ar dá um frio na barriga: e se ninguém apoiar? E se acharem nosso projeto desinteressante? Mas o primeiro dia foi surpreendente, e agora não podemos deixar a peteca cair. Temos até dia 1 de fevereiro de 2018 pra alcançar a meta mínima (que é de R$9000) e tirar o Intercâmbio Feminista do papel.

Então obviamente que eu tinha que falar sobre isso aqui no blog. Se você puder, faça uma contribuição (as recompensas são bem legais, modéstia a parte) ou compartilhe o link com os amigos, ou nas suas redes sociais. Todo mundo sabe que não há propaganda melhor do que o boca a boca. Quem sabe ainda hoje conseguimos alcançar 20% da meta?

Conto com vocês! E o link é: benfeitoria.com/feminista


Leitura: Girl Up, Laura Bates


Se você lê esse blog faz tempo, talvez tenha reconhecido o nome da autora, Laura Bates. Eu já falei dela aqui várias vezes. Foi a Laura Bates que criou o projeto Everyday Sexism e depois escreveu um livro sobre o assunto (que pra mim é um oráculo feminista). Sou muito fã dela e corro atrás de tudo que ela escreve (ela frequentemente publica no Guardian e também no The Pool - onde eu também já publiquei, o que me deixa sim muito orgulhosa!). Então, quando ela lançou esse segundo livro, Girl Up, eu comprei mesmo sabendo que era direcionado para adolescentes.

O livro acho que ficou mais de um ano esperando na minha estante, e achei que agora era uma bora hora, já que tenho tentado escolher livros que me tragam muito mais prazer do que os textos acadêmicos do mestrado.

Bom, como eu disse, Girl Up (aliás, esse título é ótimo, é uma alternativa ao termo "Man Up"ou, em bom português, "seja homem") foi escrito para adolescentes. Fala sobre como a mídia contribui para que as mulheres sejam objetificadas, fala sobre pornografia, fala sobre body shaming, fala sobre cyber bullying, fala sobre feminismo. Ou seja, é basicamente um guia para adolescentes compreenderem o mundo machista que vivem.

Eu praticamente não tenho contato com adolescentes, mas acho que é muito necessário saber como lidar com as mulheres nessa faixa etária e saber o que está acontecendo. Afinal, "na minha época" felizmente não existia internet. Quer dizer, existia, mas não era parte da minha realidade. Nada de redes sociais, nada de emails, muito menos haters. Não consigo imaginar como deve ser ruim ser adolescente E ter que lidar com isso.

Enfim, fica essa dica preciosa para quem convive com meninas e adolescentes. Seja filha, prima, filha da amiga, sobrinha.... vale a pena dar uma lida e tentar abrir um canal de comunicação.

Ganhei um prêmio!


Há uns meses (não lembro direito quando, talvez julho ou agosto) recebi a notícia de que estava concorrendo a um prêmio. Quer dizer, eu não, a Conexão Feminista. Mas como o prêmio é organizado por uma instituição aqui em Londres (Focus Brasil), obviamente eu fui colocada como "responsável", caso ganhasse.

A categoria que estávamos concorrendo era "Fenômeno Digital", e como tinha um monte de gente bacana nessa mesma categoria, achei que não rolaria. Claro, pedi votos nas redes sociais (a primeira fase era voto popular) mas não insisti muito. Pra minha surpresa, em outubro saiu o resultado de que havíamos passado pra segunda fase, junto com outros dois finalistas (um dos quais o podcast Chá com Rapadura, que eu adoro e é muito bombado). E, poucos dias depois, saiu o resultado: a comissão da Focus Brasil escolheu a Conexão Feminista pra levar o prêmio!!!

E então chegou o dia da cerimônia de premiação, e lá fui eu receber o troféu (bem bonitinho). Meu primeiro troféu! E o melhor: tive o privilégio de dividir esse momento com um monte de amigas queridas que foram lá me prestigiar (infelizmente não tirei foto com todas...)

É isso. Agora com licença que eu vou lá no Linkedin atualizar meu perfil e avisar que meu passe está mais caro : )




Leitura: Woman at Point Zero, Nawal El Saadawi


Antes de falar do livro preciso dizer que estou orgulhosa de conseguir um tempinho pra continuar lendo coisas fora dos textos obrigatórios para as aulas do mestrado. Mas também estou escolhendo livros mais curtinhos, que sei que não ficarão meses indo pra lá e pra cá comigo dentro da bolsa.

Comprei esse recentemente, apesar de ter uma pilha imensa na minha estante, tem livro eserando a vez a vez há mais de um ano. Mas parecia interessante e facinho de ler, então passou na frente. A história parecia promissora: uma mulher presa no Egito, poucas horas antes de sua pena de morte ser executada, conta sua história para a psicanalista que visita a prisão. Uma história sofrida, com abusos sofridos desde a infância, prostituição e muita violência.

Mas, infelizmente, achei que a autora (ou talvez a tradução) não conseguiu colocar emoção. Uma história tão sofrida, mas que deixa demais a desejar. Não senti conexão alguma com a personagem, e achei todo o enredo meio confuso. Também achei que faltaram mais detalhes, mais descrições. Faltou vida, por mais abstrato que isso soe.

Uma pena...




3 semanas


O Martin viajou a trabalho por 3 semanas (já faz quase uma semana que voltou). Não consigo me lembrar de nenhuma outra ocasião que a gente tenha ficado separado por tanto tempo.

Eu fiquei sim com muita saudade. Mas, como comentei com uma amiga, não foi de todo ruim. Calma! Não decidi que quero morar em casas separadas : ) foi apenas um tempo bom para fazer uma reflexão e me dar conta que eu sou eu sem ele. Deu pra entender?

O negócio é que quando a gente está há tanto tempo junto com alguém (e acho que no caso de famílias sem filhos isso acaba ficando mais forte), a gente meio que vira 2 em 1. No nosso caso, "Helô e Martin". Sacam? Parece que é uma personalidade só, um gosto só. E sim, claro que um influencia o outro: eu absorvi muito do jeito Martin de ser e vice versa (isso tem lado bom e lado ruim, mas agora não vem ao caso), e a gente meio que acaba se acostumando. Por isso, quando ele ficou esse tempo fora, eu acabei percebendo que ainda sou eu sem ele. Tô filosofando demais?

Pode parecer coisa pequena, mas eu me virei pra fazer as refeições. Eu NUNCA cozinho. Assim como ele NUNCA bota roupa pra lavar. Bom, eu precisei cozinhar, afinal não há orçamento que aguente comer fora todos os dias. E ele precisou lavar as roupas, afinal não tinha cuecas suficientes para 3 semanas : )

Claro que é maravilhoso "funcionar"como um casal. Acho que a partir do momento que essa engrenagem enguiça, a gente precisa repensar se vale a pena estar juntos. Mas é também muito gratificante saber que ainda funcionamos sozinhos. Quem sabe da próxima eu até arrisco fazer um bolo? (eu pensei em fazer dessa vez mas me dei conta de que não sei mexer na batedeira profissa dele)

Leitura: Mulheres, Raça e Classe, Angela Davis


Um dos mais emblemáticos livros sobre feminismo do século 20, Mulheres, Raça e Classe só ganhou tradução em português ano passo, depois de 35 anos de sua publicação. Ganhei um exemplar da minha irmã de ativismo quando nos encontramos em São Paulo em setembro.

Angela Davis dispensa apresentações, e o que me fez mais feliz ao ler esse clássico é que a leitura é compreensível. Desde que comecei as aulas do mestrado tenho admirado ainda mais as escritoras e escritores que conseguem colocar no papel história junto com estatísticas sem tornar o resultado algo que dá pra entender apenas se vc tem um doutorado.

Mulheres, Raça e Classe é focado no movimento feminista negro dos Estados Unidos, mostrando o quanto machismo e racismo estão entrelaçados. Há pouco tempo eu li um livro contemporâneo também sobre esse assunto, o Why I'm no Longer Talking to White People About Race, que é focado na Grã Bretanha. Em ambos dá pra fazer diversos paralelos com a realidade do Brasil, e concluir que não dá pra gente lutar por igualdade de gênero como algo único. Opressões estão conectadas, e esses livros focam na intersecção de gênero e raça.

Pra minha sorte, o Mulheres, Raça e Classe é também uma das leituras recomendadas do meu mestrado. Não está sendo fácil continuar a ler os livros que escolho, pois o material obrigatório para ler antes das aulas acaba ocupando todo meu tempo fora da universidade.

Estou tentando manter minha regra de ler o que eu quiser toda vez que estiver usando transporte público. Mas as vezes a cabeça já está em curto circuito o e o tempo no ônibus ou metrô acaba sendo utilizado pra não pensar em absolutamente nada.

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16 dias depois


Poxa vida, ando novamente negligente com meu bloguinho querido. Nem havia me dado conta de que o último post foi publicado há mais de duas semanas. Quero escrever mais sobre o mestrado aqui, principalmente para poder ler os posts depois que eu terminar (algo que parece ainda tão distante) e poder comparar opiniões.

Mas está tudo bem. Tentando ajustar as idas para as aulas e outros compromissos acadêmicos com a vida social, corrida e aquele tempinho maravilhoso que a gente não faz absolutamente nada (isso anda meio escasso).

Algumas novidades: ganhei um prêmio com a Conexão Feminista e comecei a escrever pro site da revista da universidade (feita por alunos). Sobre o prêmio eu conto melhor depois que passar a cerimônia de premiação, que é apenas dia 18 de novembro. Sobre o site, você pode ler minha primeira coluna aqui (infelizmente o Brasil Observer não vai mais ser publicado, então obviamente não escrevo mais lá).

Volto logo!

Mestrado em Londres: primeiras impressões


E então que finalmente começaram as aulas do mestrado. Estava há tanto tempo me preparando pra isso que já estava se tornando uma coisa meio surreal, sabe? Parecia que não ia acontecer de verdade. Tinha o Kilimanjaro, tinha a ida pro Brasil e algumas outras viagens. O "depois do mestrado" parecia tão distante... mas cá estou eu, de fato fazendo um mestrado.

Claro que ainda é cedo pra dizer se é bacana ou não. Por enquanto está tudo indo bem. Tem sim bastante coisa pra ler, e tem sim um monte de textos complicados que não consigo entender. Mas o mais importante é que, por enquanto (e talvez mais pra frente eu perceba que falei isso cedo demais), estou achando tranquilo. Consigo ter um pouco de tempo livre, ao contrário do que esperava (e ao contrário do que a maioria das pessoas me falaram). Eu estava preparada pra não ter vida fora da universidade após o início das aulas. E apesar de realmente não poder fazer planos com antecedência (principalmente viajar), não estou achando muito diferente do ritmo da vida de freelancer.

Não sei como é no Brasil, mas aqui o mestrado é praticamente "autodidata". As (poucas) aulas são curtas, e é esperado que você corra atrás da informação e participe de palestras, grupos de pesquisa e estudo. Também não é esperado que você comece as aulas já sabendo o tema da dissertação. Aliás, é bem o contrário: na primeira semana as professoras nos falaram que começar o curso com uma ideia já formatada é prejudicial.

O meu curso tem cerca de 30 pessoas, sendo que apenas um homem. Mais da metade é composta por estrangeiros. Temos uma matéria obrigatória nesse "term" (que vai até dezembro) e outra opcional. A minha matéria opcional é por acaso a matéria obrigatória de um outro curso (Direitos Humanos), e não tem mais ninguém do meu curso que também escolheu essa. Ou seja, tenho duas turmas completamente diferentes.

No fim desse "term" terei que escrever um "essay" pra cada uma das matérias - então a coisa deve ficar mais estressante pro fim do ano.

Também me inscrevi em umas aulas de "academic language development", formuladas para alunos estrangeiros que querem se familiarizar com escrita acadêmica. E tenho usado bastante a biblioteca.

Um dos meu "medos" de voltar pra faculdade depois de tantos anos era ser a mais velha da turma. E isso se confirmou. Tem muito mais gente nos seus 20 e poucos, e que acabaram de se formar e mudar para Londres para fazer esse mestrado, do que a turma dos 30 e poucos (e menos ainda dos 30 e muitos). Mas o lado bom é a empolgação dessa mulherada novinha. E o tanto que elas sabem: já conhecem as autoras mais importantes do movimento feminista, estão envolvidas com causas, e com sede de aprender. Ainda não foram picadas pelo mosquito "estou de saco cheio de trabalhar e ganhar pouco e é isso que é a vida?", e as vezes nossa diferença de idade de 10, 15 anos, é apenas um detalhe. Adoro conversar com elas.

Bom, é isso. Por enquanto só molhei o pé na vida acadêmica. Mais updates em breve!

Leitura: Cinco Esquinas, Mario Vargas Llosa


Esse foi um dos livros que trouxe do Brasil (acho que metade do peso da minha mala na volta foi de livros), e como é relativamente curto resolvi ler dois dias antes de começar as aulas do mestrado (me bateu um desespero quando me dei conta de que não vou ler algo por escolha própria táo cedo). Eu peguei esse livro sem nem mesmo dar uma folheada, vi que era meio novo, do Mario Vargas Llosa, e comprei.

Ah, que decepção. Achei uma porcaria. O resumo da contra capa é péssimo e a tradução faz a história ficar ainda pior. Fraquíssimo. Não parei nas primeiras páginas justamente porque é Vargas Llosa, e como grande admiradora, achei que ficaria bom. Ainda bem que é curto e não tomou muito tempo.

Enfim, todo gênio tem seu dia de ordinário, não é mesmo?

O pior Vargas Llosa que já li #heloreads #cincoesquinas #mariovargasllosa

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Leitura: 4 3 2 1, Paul Auster


Está bem óbvio que eu ando dando preferência para livros escritos por mulheres. Mas no começo desse ano o meu querido Paul Auster publicou uma nova obra depois de 7 anos de "sumiço", e eu comprei na hora, quando vi na livraria. Um livro imenso, de quase 900 páginas, que ficou me esperando alguns meses na estante.

Mas com a aproximação do início das aulas do mestrado e a viagem ao Brasil (ou seja, vôos longos), eu resolvi encarar o 4 3 2 1. Além disso, ele foi selecionado para o Booker Prize, e eu sempre gosto de ler um ou outro dos indicados.

Pra quem é das antigas aqui no blog, deve lembrar que eu já escrevi sobre alguns dos livros dele. Gostei de todos que li, e com esse não foi diferente. Não sei se era porque não lia nada do Paul Auster há tantos anos e estava com saudades do estilo dele, mas achei espetacular.

O livro tem esse nome porque são 4 histórias - ou melhor, 4 caminhos - sobre o mesmo personagem principal. Nós acompanhamos o nascimento, infância, adolescência e o começo da vida adulta de Archie Ferguson em quatro versões, com diferenças - as vezes sutis, as vezes brutais - em cada um dos quatro rumos diferentes.

Junto com as possibilidades de vida dele, acompanhamos também diversos acontecimentos da história dos Estados Unidos, e do seu envolvimento - ou não, depende de qual Archie - com tais acontecimentos.

Pra quem gosta de Paul Auster e já leu outros livros dele, leia esse o quanto antes. Mas pra quem não conhece o estilo do autor, recomendo começar por algum outro, um pouco mais curto, pra ver se você curte o estilo do autor. Frases longas, parágrafos imensos, descrição de coisas do dia a dia. Ah, como eu gosto do dia a dia transformado em história extraordinária!

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(Guest Post) Relato de pré natal e parto no NHS


O NHS é o sistema de saúde pública aqui no Reino Unido. Como qualquer instituição - pública ou privada - o NHS tem lá seus problemas. E desde que cheguei aqui percebo que o sistema vive em crise. Faltam recursos, faltam profissionais, e sobram políticos utilizando o NHS para conseguirem votos. O NHS foi inclusive protagonista na campanha (mentirosa) a favor do Brexit, e um dos grandes medos da população é que um dia ele seja privatizado.

Para brasileiros privilegiados que vem morar no Reino Unido (ou seja, acostumados com plano de saúde no Brasil), pode rolar um estranhamento. A gente não pode fazer o exame que quer, quando quer. É preciso passar pelo crivo do GP (o médico de família), e a possibilidade de você conseguir fazer um exame ou ser indicado para um especialista é baixa (o papanicolau, por exemplo, é feito a cada 3 anos). O GP tenta resolver seu problema, e há inclusive a lenda do paracetamol: há quem diga que não adianta chorar as pitangas pro médico. Você vai sair da consulta com a recomendação de tomar paracetamol.

Você certamente vai ouvir histórias horrendas sobre o atendimento do NHS. Vai ouvir que é preciso exagerar sintomas, contar umas mentirinhas, insistir até conseguir fazer um certo exame ou ver um especialista. Claro que é uma loteria, seu GP pode ser muito melhor do que o da sua amiga. Aqui em casa a gente tem uma experiência ótima. O Martin inclusive já conseguiu ver especialista (dermatologista) e eu fiz exame de sangue duas vezes, sem precisar exagerar sintomas.

Mas enfim, estou fugindo do assunto principal desse post, que é contar como é o procedimento de pré natal e parto no NHS. É completamente diferente de um atendimento particular no Brasil. Tenho várias amigas que tiveram seus bebês aqui, e pedi pra uma delas, a Renata, contar como foi a experiência dela.

Queria fazer apenas um adendo ao relato da Renata: pode parecer bobagem, mas acho importante a gente lembrar que serviço público não é gratuito. Óbvio que é maravilhoso não precisar pagar um plano particular para ter acesso a bons médicos, exames e hospitais. Mas, novamente, não temos esse serviço de graça! Imposto é pra isso, certo?

Bom, segue então o relato de parto nop NHS da Renata. Se alguém tiver alguma pergunta, deixe nos comentários que eu peço pra ela responder.

**********

Descobri que estava grávida depois de fazer um exame de farmácia. Como não tinha menstruação regular, não saberia dizer a minha data estimada para o parto e por isso resolvi fazer o primeiro ultrasom particular. Me cadastrei no hospital perto da minha casa na época (West Middlesex) e avisei meu GP (médico geral). Aqui no NHS- National Health Service - o sistema público de saúde, você só está oficialmente grávida após a 12a. semana, quando uma carta chega na sua casa te convidando para a primeira consulta com a midwife, as parteiras, e o primeiro ultrasom. Vale ressaltar que você é atendida por uma equipe de midwives e que não necessariamente será com a mesma (no meu caso sempre foi diferente). E essa equipe é até o pré parto. Para o parto e o pós é outra equipe.

Entrei em contato com um amigo da minha irmã (ela é médica otorrino lá no Brasil e um dos melhores amigos dela da faculdade estava estudando em Londres na época) que é obstetra e acabei tendo acompanhamento dele ao longo da minha gravidez inteira. Então antes de fazer o primeiro ultrasom no NHS, fiz com o médico no hospital que ele fez o master dele, que é referência em estudo fetal e síndrome de down na Inglaterra.

Consultas

Com 12 semanas tive minha primeira consulta com a midwife e com 13 meu primeiro ultrasom. Nesse primeiro ultra são tiradas as medidas, é dada a data de nascimento aproximada e se você decidir pode saber se o bebê tem síndrome de down.

O próximo e último ultrasom pelo NHS feito com 20 semanas chama anomaly scan, para checar qualquer anomalia estrutural (adendo: o aborto é permitido na Inglaterra até a semana 24, no próprio NHS). Para algumas mulheres é oferecido mais de dois ultras, mas depende da gravidez e condição de saúde da grávida. É nesse scan também que você pode saber se terá menina ou menino. Aqui ainda é muito comum não ficar sabendo e mesmo se você escolhe saber, tinha um aviso no meu hospital de que não é 100% certeza.

Além das duas ultrassonografias, o acompanhamento durante toda a gravidez é feito pelas midwives e o seu médico GP. Então se você teve uma consulta com a midwife com 16 semanas, a próxima, de 25 semanas, será com o médico. O calendário de consultas é nas seguintes semanas: 12, 16, 20 (ultrasom), 25, 28, 31, 34, 36, 38 e 40 (tem também com 41 e 42). A partir da 28a. semana eles dão a vacina da coqueluche. Vale lembrar que aqui você praticamente não tem opção de cesária, a não ser que seja uma gravidez de risco, se o bebê ou a mãe estão em perigo. Por isso eles esperam até a 42a. semana de gravidez para induzir o parto, e ainda assim tentar naturalmente.

Nas consultas sempre é feito teste de urina, medem sua barriga, discutem plano de parto e são muito breves. Se você não tem nenhum questionamento, não tem porque demorar. E em todas as consultas você leva sua pastinha de grávida, com seu número de hospital, informações sobre o parto, resultados de ultrasom, etc.

Foi na minha consulta de 31 semanas com a médica no GP que ela achou que a minha barriga estava pequena (pela medição deles, era uma barriga de 28 semanas e não 31). Na mesma hora ela ligou para o hospital e no dia seguinte fui ao ambulatório medir minha barriga, escutar o coração do Felipe por mais de 1h (eles medem os batimentos para ter certeza de que está tudo bem) e assim foram três dias na semana, por duas semanas. Eu ainda fiz mais um ultrasom, onde a ultrassonografista perguntou se eu me exercitava, eu disse que sim, inclusive tinha corrido uma meia maratona grávida - sem saber - e ela explicou que barriga de "atleta" sempre é menorzinha.

Como falei lá no começo, eu tive acompanhamento de um médico brasileiro ao longo da minha gravidez inteira - fiz ultrasom até 38 semanas. E vou confessar que toda vez que tinha um ultrasom marcado com ele eu ficava mais em paz de saber que tudo estava caminhando bem. Portanto se eu não tivesse tido esse acompanhamento, com certeza teria feito um (ou dois!) ultrasom particular.

Com 37 semanas mudamos para o outro lado da cidade e consequentemente de hospital e de equipe de midwifes. Avisei meu antigo hospital, fui conhecer meu novo quando tive consulta (alguns hospitais disponibilizam tour para conhecer a maternidade, mas não fui) e me cadastrei no GP. No meu novo bairro, as consultas eram feitas sempre com as midwifes - e não com o GP. Tive 2 consultas, uma com 38 semanas e outra com 39 (minha barriga pequena ainda era uma preocupação). Lembro que era uma quarta-feira e ao sair dessa consulta falei para a midwife: até a semana que vem. E ela: talvez não, né? Não fui mesmo. Felipe nasceu na sexta-feira, com 39 semanas e 2 dias.

Parto

Na manhã de sexta feira estava me sentindo diferente, não sei explicar...tinha um incômodo, mas nada preocupante. Fiz um bolo de limão, já que a minha família chegaria no sábado, descansei um pouco e ia fazer meu almoço. Levantei do sofá e minha bolsa estourou às 12:30. Liguei para o Vini, meu marido, e ele não atendeu. Veio uma mensagem: é urgente? Sim. Falei que estava tudo bem e que ia ligar para a midwife. Ela me disse que eu precisava ir para o hospital para eles me avaliarem, nada correndo, nas próximas 24h, e para eu guardar todos os absorventes para eles analisarem o líquido.

Combinei com o Vini de nos encontrarmos no hospital, já que ele ia do trabalho e não compensava vir até em casa. Chamei um uber, peguei minha mala do hospital e minha pastinha com todas as informações e fui. Subimos para a maternidade e fui atendida no Oasis Ward.

Aqui vale uma pausa para explicar que a maioria dos hospitais (não sei se em todo Reino Unido, mas acredito que sim) tem dois tipos de maternidade: a tradicional, onde se eu escolher ter anestesia eu posso ou se precisar de algum cuidado especial, e o oasis, que parece um mini spa, com bolas de pilates, banheiras, algo mais natural, sem intervenção médica.

Quando fui atentidida pela midwife no Oasis achei estranho, afinal, eu deixei bem claro no meu plano de parto de que queria anestesia, ter uma epidural. Ela ouviu o coração do Felipe, o meu, nem viu se eu estava com alguma dilatação e falou: olha ainda esta muito no início do trabalho de parto. É melhor vocês voltarem para casa, pois aqui não tem onde ficar. Vini falou que estávamos de taxi, se não era melhor esperar lá. Ela se desculpou e disse que podíamos ficar lá embaixo, na recepção. Mas antes perguntou se não queríamos conhecer o Oasis. Eu disse que não, que queria ter na maternidade pois queria anestesia. Mas por que você quer anestesia? Você é capaz de fazer sem anestesia. E só saberá se passar por isso. É prefiro não saber. Isso eram umas 15h.

Ainda ficamos em um café decidindo o que fazer. Não tínhamos carro então teríamos que pegar táxi, horário de pico...mas decidimos e chegamos em casa umas 16:30. Tomei banho, coloquei a tens machine, que da choquinho para aliviar a dor das contrações que começaram a ficar cada vez mais frequentes, mais doloridas. Vini chamou um uber e chegamos de volta no hospital às 19h. Era troca de turno das midwifes. Estávamos na sala de espera e eu já com muita, muita dor.

Nos atenderam às 19:30. Me examinaram e eu já estava com 7 cm de dilatação. Vini falou que eu queria epidural. A midwife muito simpática falou: querido não vai dar tempo. Mas vocês não podem tentar? Podemos, mas precisamos de um anestesista e precisamos ver se ela pode tomar. O processo demora. Nisso eu com muita dor, falei: to querendo empurrar. Nos levaram para a sala de parto. O cordão umbilical estava enrolado no ombro, ouviram os batimentos do Felipe e chamaram uma obstetra que acompanhou o finalzinho do parto. Ainda bem que não resolvi ter no Oasis. Felipe nasceu às 20:50.

Pós parto

Todo o atendimento no meu pre-natal e parto foi muito bom, mas o pós parto foi muito ruim. Digo no hospital e nos primeiros dias com o Felipe em casa. No hospital não fizeram muita questão de me ensinar a fazer ele mamar no peito. Até mostraram mas sempre com a fórmula do meu lado. E na maternidade mesmo Felipe tomou fórmula. Fizeram os testes de recém nascido nele e recebemos alta no dia seguinta, sábado, às 22h.

Depois que o Felipe nasceu e foi examinado pela pediatra, ficamos no quarto por cerca de 2 horas. Tomei banho, comi um lanche oferecido pelo hospital e trocamos o Felipe. Não ficou nenhuma enfermeira ou midwife conosco no quarto. Nos transferiram para a ala de pós parto e uma das midwives falou que colocaria a gente perto da janela para termos um pouco de privacidade. Na ala de pós parto era dividida por 7 baias. Cada uma tinha uma cama, uma poltrona e um bercinho. O bebê fica com você o tempo todo. Quando cheguei, 4 baias já estavam ocupadas.

Dois dias depois de receber alta, uma health visitor vem na sua casa para saber como você esta e o bebê. Foi a pior health visitor que conheci ate agora. Falei da amamentação, mostrei como ele mamava e ela disse que o Felipe tava fazendo meu peito de chupeta. Dei fórmula na mamadeira para ele chorando enquanto ela escrevia no livro do Felipe que eu e o Vini estávamos muito emocionalmente abalados.

Como Felipe perdeu 9% do peso do parto (o aceitavel é até 10%) eu tive visita de health advisers ate que bastante na minha casa e também tinha consulta no hospital. Cinco dias depois recebemos a visita de outra, um pouco mais profissional, que fez o teste do pezinho, me perguntou da amamentação, disse para eu complementar com fórmula e o pesou. Cada vez q eu tirava a roupa do meu magrelinho para colocá-lo na balança meu coração batia tenso. Felipe tinha ate dia 25 de junho, 15 dias após o nascimento (e meu aniversário!) para atingir um determinado peso.

Dia 18, um sábado, duas super amigas vieram me visitar e me ajudaram muito, mas muito mesmo com conselhos sobre amamentação. Foram essenciais. Todo apoio, conversa e incentivo vou guardar para sempre. "Siga com força de vontade e perseverança que você ta fazendo certo. Acredite em você e não dê a fórmula". Uma semana se passou e fomos eu, minha mãe e irmã pesá-lo no hospital. Era uma health advisor bem jovem, super simpática. Mas de novo o frio na barriga ao colocá-lo na balança começava. Meu melhor presente de aniversário foi ouvir: "Felipe engordou xx gramas. Alcançou o peso. Continue como você está fazendo, pois funcionou". Quem vê fotos dele com seis meses nem imagina o que foram os primeiros meses da amamentação. Foi uma vitória, com muitas lágrimas, muita dor, muito cansaço, mas também muito apoio (Vini, família, amigas e grupos de amamentação), muita conversa e muita determinação minha.

Visitas

Aqui você não tem um médico pediatra que acompanha seu filho. Temos health advisors que vão até sua casa nos primeiros meses, o GP, que você registra após o nascimento e onde toma as vacinas, e centros de pesagem, em dias e horários específicos separados por região. Temos também muitos grupos de apoio à amamentação que normalmente são organizados por voluntárias. Lá você pode também pesar o bebê, conversar, ouvir outras mães. Para mim era como se fosse uma terapia. De graça.

Lembrar que todo o meu pré natal, parto e o pós parto foram realizados no NHS ainda me surpreende. Eu acho um serviço muito bom, não tenho do que reclamar (tirando a primeira health advisor que veio em casa). No meu GP tem a opção de ter uma consulta telefônica no mesmo dia, consultas marcadas e consultas para o mesmo dia. A grande maioria das vezes que precisei falar com o médico, eu fui atendida. O Felipe com 2 meses teve uma gripe super forte e em 10 dias levei ele no GP cinco vezes. Todas as consultas fui atendida pelo mesmo médico, atencioso, mas que chegou a anotar em um papel o número de vezes considerado normal a respiração de um bebê a pediu para eu contar antes de voltar lá.

Enfim...eu estava acostumada a ter plano de saúde no Brasil e sempre ter a minha irmã e tios médicos perto. Aqui a coisa é diferente e tudo é adaptação, principalmente com o Felipe. Mas aos poucos a gente vai entendendo como funciona e entramos no esquema do NHS.

10 horas de atraso


Acabamos de voltar de umas férias no Brasil. Por isso o silêncio por aqui. Foi pouco tempo, 10 dias, mas de longe a melhor visita ao Brasil desde que moro em Londres. Talvez o segredo seja esse: ir com mais frequência mas ficar menos tempo.

Essa foi a primeira vez que viajamos pra São Paulo fazendo conexão. Os preços das passagens estão exorbitantes, então optamos por fazer um trajeto longo, mas que nos custou metade do preço de um vôo direto: fomos vias Estados Unidos. Ou seja, em vez de um vôo longo pra cada perna, foram dois.

Na ida a troca de avião foi em Chicago, com uma diferença de três horas entre chegar de Londres e embarcar pra São Paulo. Na volta a troca foi em Newark (em New Jersey, um dos aeroportos que servem Nova York), e também seria de três horas. Ou seja, o suficiente pra passar na imigração, esticar as pernas, comer algo. Nem corrido, nem muito demorado.

Os vôos de ida deram super certo. Mas na volta, assim que chegamos em Newark, descobrimos que o nosso vôo para Londres estava atrado DEZ HORAS. E pra piorar, a United Airlines foi muito rápida em nos informar que não nos deviam nada, já que as leis nos Estados Unidos são diferentes das leis Na Europa. Ou seja: eles não nos dariam um hotel ou uma compensação financeira. No máximos, uns vouchers para refeição dentro do aeroporto mesmo (porque são bonzinhos, não porque são obrigados). Não nos deram nem mesmo acesso a uma sala vip onde poderíamos tomar banho, comer e descansar. Tínhamos que esperar o vôo quietinhos.

Mas melhor do que ficar um dia inteiro mofando no aeroporto é passear em Nova York. Não pensamos duas vezes. Pegamos o trem e em uma hora estávamos em Manhattan. Eu com a minha bolsa super pesada (comprei uma esculturinha em uma loja de artesanato em Santa Catarina e preferi não depachar com medo de que ela quebrasse) e a sacola do laptop a tiracolo. O Martin com a mochila que, entre outras coisas, continha meu livro de 900 páginas e minha super almofada de avião (antes que alguém pergunte por que não deixamos em um guarda volume: só abriria às 8 da manhã e estávamos prontos pra ir já às 7). Nós dois com aquela nhaca de avião, desodorante quase vencido, cabelos mega desgrenhados. Mas NY logo ali né?

Já no trem mandei mensagem pra duas amigas que moram lá, e assim tivemos a companhia maravilhosa de pessoas que eu amo de paixão. Deu pra fazer um tour interessante de Manhattan (foi a primeira vez que voltamos lá juntos desde 2005 quando fomos na nossa lua de mel), passando pela minha loja preferida, por Wall Street pra ver a Fearless Girl, pelo novo World Trade Center e finalizando com um almoço no Eataly.

Então, a United acabou me fazendo um grande favor.

Já estamos em casa, descansados e limpinhos, com as malas desfeitas.  Esse encerramento das férias de maneira totalmente inesperada foi  a cereja do bolo!

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